Como a música é uma ciência multifacetada, ao mesmo tempo em que é arte e ciência, ela também é pedagogia, terapia e um exercício cognitivo. Pode ser até mesmo medicinal, segundo alguns estudos. Temos, portanto, algumas dimensões pelas quais podemos analisar o espectro do alcance da música na vida das pessoas.
Ela não pode ser compreendida apenas por sua estrutura sonora, mas também por suas funções sociais, culturais e biológicas.
A musicalidade antecede a própria linguagem verbal, sugerindo que a música constituiu uma importante estratégia evolutiva para fortalecer vínculos sociais e favorecer a cooperação entre indivíduos.
A primeira coisa que eu vejo é que a música possui pelo menos cinco camadas de profundidade mais aparentes que podemos explorar. A camada mais superficial — e nem por isso menos profunda, pois tem uma relação emocional com o ouvinte — é a camada da música de festa: aquela que escutamos em um ambiente festivo, quando estamos fazendo alguma coisa, colocamos uma música e a ouvimos, aproveitando-a e desfrutando dela. É a música que serve como plano de fundo, como conforto artístico, acústico e estético para momentos da nossa vida.
Ainda que muitas vezes seja considerada apenas entretenimento, essa escuta cotidiana exerce importante função psicológica.
As pessoas utilizam a música para regular emoções, organizar rotinas, construir estados de espírito e administrar situações sociais.
O segundo nível de profundidade, que amplia ainda mais as áreas da vida que a música pode abranger, é o nível intelectual, o nível cognitivo. É o que conseguimos exercitar por meio do estudo da música, do conhecimento da ciência musical, da leitura e da escrita musical e das referências históricas. Todas essas são multidisciplinaridades que a música traz para o campo pedagógico e cognitivo.
Pesquisadores defendem que a aprendizagem musical desenvolve formas específicas de pensamento que vão além da execução instrumental, envolvendo percepção auditiva, antecipação, abstração e memória.
Além dessa dimensão, possuímos ainda outra. A terceira dimensão, um pouco mais profunda, é a dimensão do trabalho com a música. É quando a música se torna um sustento. Aí a conversa fica muito interessante, porque venho falando bastante nas minhas colunas sobre a relação de trabalho, sobre a organização do artista, pois também são coisas que tenho vivido e colocado nas publicações.
Essa relação de trabalho me toca muito e eu a compreendo como participando juntamente do instinto de sobrevivência. É um encontro entre a arte e a natureza, que precisa dar conta de sobreviver e usa a música para isso. Esse terceiro nível pressupõe que, para o profissional, já estejam muito bem assimilados os dois primeiros: o conhecimento teórico e o sentimento pela música.
O campo artístico é atravessado por relações econômicas, simbólicas e sociais que condicionam a produção cultural.
A profissionalização da música exige competências que extrapolam o domínio técnico, envolvendo gestão, comunicação, empreendedorismo e capacidade de adaptação aos diferentes contextos culturais e tecnológicos em que a atividade artística acontece.
O quarto grau é o grau do vínculo. É o vínculo que a música traz, o vínculo que ela causa entre as pessoas e proporciona. O processo de gravar, o processo de se preparar para os shows, o processo de conhecer os artistas, o vínculo pessoal com os artistas locais e também o vínculo de inspiração com os artistas conhecidos e com as próprias referências. O vínculo que a música proporciona altera a organização da sociedade, aproxima as pessoas umas das outras e gera um reconhecimento de identidade a partir do vínculo musical e artístico, daquelas expressões artísticas que conversam mais diretamente com os contextos de cada pessoa.
Uma das principais funções da música consiste justamente em fortalecer laços sociais, transmitir valores culturais e consolidar formas de organização comunitária.
O nível mais profundo da música é o nível da expressão. É quando usamos a música como linguagem para nos comunicar com o mundo, para imprimir algo nosso no mundo e para sublimar nossas inflexões emocionais. A música alcança, então, um patamar de contemplação de uma estrutura da natureza tão complexa quanto qualquer tecnologia das mais avançadas e tão perene quanto qualquer outra força da natureza.
Nesse nível, a música deixa de ser apenas um objeto de apreciação ou uma profissão e passa a constituir uma forma de existência.








