A inspiração visita, mas a disciplina mora na casa. Decisões cotidianas constroem os alicerces de uma vida artística saudável. Mas como o mito de Sísifo, muitos de nós continuamos rolando a pedra ladeira acima.
Outro símbolo que me chama atenção é Anúbis, que conduz a alma ao julgamento. Há uma parte de mim que avalia honestamente o que eu estou fazendo.
Vejo que assim como a verdadeira leveza de coração é o fruto de uma carreira fundamentada no alinhamento entre discurso e prática, já vi minhas ilusões serem devoradas por eu não estabelecer integração entre meus valores e trabalho. O Coração fica pesado.
A alma declara o que não fez, uma carreira também é construída pelo que evitamos fazer. É necessário ficar bom em renunciar.
Qual a minha parcela nessa situação? É muito fácil culpar – e com razão o é – a falta de políticas públicas para tornar a vida do Arlequino mais fácil, difícil é fazer ele parar de ir atrás da Colombina.
É curioso temer o sucesso. Ter uma responsabilidade maior e sustentar um nível mais alto. É um apego ao previsível, talvez uma pura definição da preguiça.
É preciso prestar atenção aos próprios sinais. Corpo, mente, relações, trabalho, erros e acertos nos avisam. Meritocracia no sentido lato não se restringe a visão capitalista de conforto doméstico. Eu posso merecer me sentir tranquilo, independente das circunstancias materiais, pois a pedra angular dessa casa sempre será o caráter. Dar valor as oportunidades de se melhorar. Ser honesto com as limitações.
É importante não medir a própria trajetória com a régua alheia ou vice-versa. Todos nós envelhecemos, fracassamos, erramos e perdemos oportunidades. Somos iguais sim, com um destino comum. Mas com um processo individual. Não há espaço para arrogância, menos ainda para autocomiseração.
Existem ferramentas que empoderam o arista e especificamente no meu caso, o músico.
A primeira constante que me vem em mente é a competência real no que a gente faz. Saber tocar e cantar. Compor e arranjar. Estudar com afinco até adquirir naturalidade nessas atividades. Saber submeter as obras a uma revisão que pastoreie as inocências.
Em seguida me toca ser tão imperativo que, para que a música encontre clareza no processo de vir ao mundo, esta mesma clareza precise estar estampada no ambiente interno e externo do artista. Isso não significa que a inspiração não o assalte de surpresa em momentos inimagináveis. Esse aspecto de clareza que eu menciono é relativo ao processo de desenvolvimento da obra, e não necessariamente o momento de sua concepção. É importante conduzir de forma consciente e estratégica as escolhas que conduzem a obra a sua amarração final. Exercendo a disciplina que este movimento requer.
Podemos considerar como performance tudo que conduz o “artesão” à “bancada”, bem como seu modus artístico e a reverberação emocional decorrente da cadeia de acontecimentos subsequentes a exposição gerada pela obra.
O ambiente ideal para o desenvolvimento dessas aptidões não possui aura de mistério. Fundamental também é cuidar do principal instrumento musical que existe: O Corpo.
Costumo dizer que o dia começa na hora de dormir. Talvez o maior desafio para um músico que toca na noite seja regular o ciclo circadiano. Não consigo encontrar relação clara entre essa prática e a biomimética. O trabalho com música para ser digno mesmo deveria me apresentar a opção de respeitar a minha biologia. Isso é biomimética: “Imitar” a natureza. Com muitas aspas, por que já somos naturais. Mas dá pra entender um dos dilemas? Isso dificulta a alimentação e a rotina em geral. Além de prejudicar a voz e a audição, devido à recorrência da presença em lugares com som absurdamente alto.
Este e outros paradoxos do ofício musical podem ser mitigados com uma estratégia de carreira mais clara, e normalmente mais extensa e desafiadora. Faculdade, intercambio, plano de estudos consistente, atenção as oportunidades públicas e privadas.
O que entra em jogo aqui nesse ponto é a capacidade de adaptação. Visto que o músico muitas vezes vende o almoço para comprar a janta, como que faz pra sair dessa situação de uma vez por todas. Sendo que bares podem falir, e você precisa arrumar outro pra trabalhar – que também pode falir. Sobra duas opções para quem quer tocar: Música autoral em editais públicos, ou concurso público para cargos em universidades ou outras instituições que desenvolvam atividades musicais (exército, prefeitura, polícia, e outros).
É difícil fazer música pensando em como vai ser para pagar o aluguel, esperando que não cortem a luz. Ainda mais acordando destruído na segunda de manha devido à quantidade de trabalho no final de semana. Em que passamos longas horas trabalhando, entre notas; ensaios díspares, treinos solitários, passagem de som, o próprio show, e o tempo de recuperação após. Muito mais de uma dúzia de horas de trabalho por apresentação, que diluídas no cache não valem trinta reais a hora – gritando.
Ser uma autoridade na área artística significa ser uma autoridade para si mesmo, sem isso somos apertadores de parafusos.








