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Ponto de mudança

Por André Drago
10 de agosto de 2026
Alice, na obra "Through the Looking-Glass" de Lewiss Carroll ilustração de John Tenniel

Alice, na obra "Through the Looking-Glass" de Lewiss Carroll ilustração de John Tenniel

Somos apresentados a procedimentos diariamente. Nas redes sociais, cursos, livros, palestras, amigos, alguém nos ensina um método capaz, supostamente, de nos aproximar do sucesso. São hábitos, técnicas, dicas de produtividade, estratégias de carreira, organização pessoal, exercícios e cursos para melhorar o desempenho. Prometem que se você fizer isso, depois aquilo e, finalmente, aquilo outro, estará mais próximo do resultado que deseja.

Muitas dessas coisas funcionam. Há pessoas que seguiram determinados métodos e alcançaram resultados extraordinários. Mas existe uma pergunta anterior: chegaram porque seguiram passos ou já haviam mudado previamente?

Existe uma diferença entre aprender o caminho e decidir percorrê-lo.

A mudança é a vida. Não é preciso, nem adianta muito fazer força. Não pensamos em respirar. O coração trabalha enquanto dormimos. Processos automáticos, que podem ser colocados sob o domínio parcial da consciência.

Podemos alterar ritmo, profundidade e duração da respiração e, através desse controle, modificar nosso desempenho em determinadas situações. Atletas, mergulhadores, corredores e músicos conhecem, cada um à sua maneira, a importância dessa relação entre aquilo que fazemos automaticamente e aquilo que aprendemos a controlar conscientemente.

Não somos capazes de determinar todas as circunstâncias que nos cercam, de fato não podemos garantir os resultados que desejamos. Mas existe uma parcela da realidade sobre a qual podemos agir.

É aí que surge o ponto de mudança.

Se eu desejo parar de fumar, métodos, medicamentos, acompanhamento profissional, e inúmeras ferramentas podem ajudar. Mas nenhuma delas substitui aquele momento em que se reconhece: chega.

A dificuldade não some. O sentir somente não transforma uma decisão em resultado imediato. Mas quando se sabe o que se quer tudo fica mais fácil. Nada te segura.

A partir dali, as estratégias passam a ter outro sentido. Já não são simplesmente instruções externas que alguém tenta cumprir. Tornam-se ferramentas de uma decisão que a própria pessoa assumiu. A ação está no campo do sentimento, e não da cognição.

É o instante em que nos incomoda a permanência no estágio anterior.

Como é para o Artista?

Por experiência própria e também a partir dos muitos relatos que ouvi, em determinado momento, o ponto de mudança do artista pode estar justamente em reconhecer o próprio valor.

Não somos geniais, indispensáveis ou superiores. Valorizar-se não é construir uma fantasia sobre si mesmo, e sim reconhecer honestamente que aquilo que fazemos possui algum valor e que pode ser útil, significativo ou prazeroso para outras pessoas.

Quem decide que nosso trabalho merece ser apresentado?

A pessoa pode passar uma vida melhorando sua técnica, estudando harmonia, instrumento, composição, produção, arranjo, tecnologia, história da música e tantos outros aspectos. Pode desenvolver uma obra consistente e, ainda assim, permanecer praticamente invisível.

Foi tomada a decisão de se mostrar?

É possível que exista um público para uma obra que ainda não encontrou esse público. Existem pessoas que podem se identificar com uma história que ainda não ouviram. Existem canções que podem significar alguma coisa para alguém que sequer sabe que elas existem.

O ponto de mudança do artista é o momento em que decide se comunicar.

E comunicar é muito mais do que publicar.

Comunicar é aceitar estar com outras pessoas através daquilo que fazemos. Uma música pode atravessar distâncias e estabelecer um encontro entre pessoas que jamais estiveram no mesmo lugar. Os shows fazem isso presencialmente, as gravações, através do tempo. E ainda, esta comunicação fica disponível para quem ainda nem nasceu.

Isso é o Humano.

É um erro atribuir às plataformas a responsabilidade pela nossa visibilidade. O Instagram não decide quem somos. O Spotify não determina o valor. Um algoritmo ou qualquer outra empresa pode funcionar como veículo, amplificador ou intermediário, mas nenhuma dessas coisas substitui a decisão fundamental do artista de querer ser visto e escutado.

Eu sou comunicado pela música dos amigos também. Já me disseram que gostariam de ver mais obras minhas publicadas. São pessoas que conheceram porque as ouviram diretamente de mim, em alguma situação.

Essas pessoas são um motivo.

Assim que surge a “vontade de materializar”. Existe a possibilidade concreta de que alguém, em algum lugar, queira ouvi-la.

É uma mudança de relação com aquilo que fazemos.

Antes de que você encontre minha música, eu posso decidir encontrar você.

Isso muda a maneira como trabalho.

A capacidade de composição, o conhecimento musical, a matemática, a percepção, a tecnologia, a produção e o desenvolvimento cognitivo continuam sendo condicio sine qua non. Mas deixam de ser o destino final.

Porque música não é somente sobre aprender a fazer música melhor.

Música é uma oportunidade de desenvolvimento humano.

Tags: André Dragoautonomia artísticaEstpudio DragoMaringáponto de mudançaPsicologiavida do artista

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