Recebi uma composição de IA, saiba o que eu fiz:
Semanas atrás um cliente entrou no estúdio solicitando uma produção musical no mínimo pretensiosa. Quase 20 pessoas envolvidas em um projeto musical, a maioria profissionais. A proposta: gravar uma música que já estava pronta (em termos de composição musical, ou seja, arranjos musicais definidos, “martelo batido”), e que iria ser gravada no estilo “live” (em que gravamos os instrumentos ao mesmo tempo, tocando juntos, por vezes em salas separadas no estúdio para preservar a qualidade e possibilidade de edições e mixagens mais técnicas).
Este serviço específico possui um valor, evidentemente. Aplicado e aceito o orçamento, iniciamos o processo. Não identificarei características específicas para não expor os artistas envolvidos e as vítimas inocentes.
O único material que tínhamos a princípio era um vídeo da primeira apresentação da música. Até então nada de anormal. Apenas um grupo tocando um estilo de música comum, com uma letra simples que se voltava a atender o momento que era proposto àquele grupo social.
Um acorde me chamou muita atenção, pois aparecia em um momento da música muito incomum para a linguagem do estilo. Foi minha primeira pergunta: quem compôs a harmonia? A resposta foi esquiva, não esclareceu quem havia composto, mas informou que um colega havia inserido este acorde ali. Sendo assim, concluí que a composição existia previamente.
Outra pessoa, com muitas chances o próprio compositor da letra, apresentou aos colegas a música pronta, e este grupo de músicos a princípio foi incumbido apenas de interpretá-la. Imagino que a primeira pessoa que recebeu o material, e que também revisou os arranjos vocais, já percebeu algo diferente (ou melhor seria dizer “indiferente”?) residia (ou estava ausente?) na composição. Talvez por isso a necessidade de inserir “algo a mais” na música, como o acorde mencionado. Desta maneira, aproximar a composição original do estilo proposto. Contudo, outra intenção poderia estar ali: trazer um aspecto sensível para a obra, que carecia disso e eu já vou explicar o porquê.
Como as informações a respeito da obra só vieram por intermédio do meu cliente, eu ainda não sei de fato detalhes e pontos de vista dos outros envolvidos, estou narrando a situação como chegou a mim. Considero isso parte de um exercício que venho fazendo em produzir dossiês genéticos a respeito das obras musicais com as quais trabalho, com finalidade de entender os processos que conduzem à criação das obras musicais.
Apertei um pouquinho mais meu cliente e ele finalmente me mostrou a origem da ideia da música. Aquela apresentação cujo vídeo eu havia assistido era a simplificação de uma produção gerada por inteligência artificial. Eu escutei este áudio, queria desouvir, por que a comparação que sofremos é muito rude. Percebi que a versão simplificada, o acorde inserido de forma incomum, a proposta de gravar “rapidão”, todas eram características da falta de um ser sensível que conduzisse a composição musical à realização de suas pretensões.
A minha sorte, e a do pessoal, é que um aspecto do qual não tratarei aqui me impeliu fortemente a ser exatamente esta pessoa. Fortemente.
Abracei as horas invisíveis (leia o texto no canal online desta coluna) e arregacei as mangas para produzir um arranjo para big band (banda grande, com dúzias de músicos, entretanto os arranjos precisam ser escritos em grade, como ocorre em uma orquestra).
Como não existia material original do compositor cantando a letra, fica difícil assumir que ela não tenha sido, da mesma maneira que a melodia, harmonia e ritmo, gerada por I.A. Esse mistério eu não sei se tenho interesse em desencriptar. Prefiro não saber. Mas assumi isso apenas para vias de mitigar qualquer indício de participação robótica.
Como a letra era precisamente curta e vocais de fundo cantam em responsório, vi no arranjo coral a possibilidade de inserir mais texto, escolhido e musicado por mim segundo o estilo da produção. Reduzindo a proporção do texto originalmente trazido em relação ao “criado humanamente”. Mantive os acordes que compõem a harmonia da música, porém inseri outros, alterei a ordem em que eles surgem, corrigi a função daquele acorde problemático, criei sessões novas como introdução, interlúdios, codas e solos para instrumentos. Compus o contraponto harmônico pensando nas dissonâncias que a I.A. evita usar por não compreender ainda muito bem a teoria musical e os usos emocionais de notas de passagem que apenas os humanos aplicam. Nossa sorte, mas imagino que não por muito tempo.
Na hora de criar música, o gerador automático evita decisões consideradas arriscadas, e é exatamente isso que torna a Música Humana.
O resultado é uma composição que visa mitigar ao máximo qualquer indício de origem em inteligência artificial. Mas mesmo assim uma boa análise musical, principalmente na letra, pode sugerir isso. Hoje não existe certeza a respeito do que é ou não gerado artificialmente. Costumo dizer que estamos na era do cyborg fantasma.
O que é orgânico passa a ser delegado ao cibernético, sem proporções seguras para o uso.
Leia mais colunas a respeito deste assunto:
Dialética da Tecnofobia – Entre Notas
A Profecia Ríspida – Entre Notas








