A inovação tecnológica está transformando o comércio de serviços da China, com inteligência artificial, computação em nuvem, navegação por satélite e serviços digitais ganhando espaço nas operações internacionais. O movimento mostra uma mudança gradual no modelo de negócios do país, que passa a exportar não apenas equipamentos, mas também soluções e serviços baseados em tecnologia.
Um exemplo apresentado durante a China International Fair for Trade in Services (CIFTIS), realizada em Pequim, é o de Zhang Qianchao. O empresário atua praticamente sozinho e utiliza apenas dois computadores para administrar suas operações de exportação. Sua equipe é formada por oito agentes de inteligência artificial, responsáveis por tarefas como avaliação de clientes, desenvolvimento de produtos e acompanhamento de pedidos.
Em apenas dois meses, Zhang chegou a vender mais de 3 mil bonés para compradores da Europa, América do Norte e África. Em uma negociação com um cliente do Oriente Médio, por exemplo, um agente de IA criou três propostas de design em poucos minutos, permitindo que o negócio fosse fechado por milhares de dólares.
O caso ilustra como serviços baseados em inteligência artificial começam a impulsionar as exportações chinesas. Nos primeiros sete meses de 2026, as exportações de serviços da China cresceram 17,1% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto os serviços intensivos em conhecimento responderam por mais da metade do total.
Tokens ganham espaço como unidade de serviços digitais
As novas tecnologias também estão criando modelos diferentes de comercialização. A plataforma Accio Work, desenvolvida pela operação internacional do Alibaba, já é utilizada por mais de 10 milhões de pequenas e médias empresas em todo o mundo. O número de usuários cresceu mais de 30 vezes em um ano.
A proposta é oferecer às empresas acesso a agentes de inteligência artificial capazes de executar tarefas que antes exigiam equipes maiores.
As principais operadoras de telecomunicações chinesas também apresentaram soluções semelhantes durante a feira. A China Mobile, por exemplo, exibiu o MobileClaw, agente de IA para computadores capaz de realizar tarefas como escrever códigos, preparar relatórios e administrar contas de e-mail.
Nesse novo modelo, o consumo dos serviços é medido em tokens, unidades utilizadas por modelos de linguagem para processar informações e que também podem servir como referência para cobrança.
A China Telecom apresentou pacotes de tokens com diferentes níveis de utilização, enquanto a China Mobile International mostrou uma plataforma de negociação de capacidade computacional que permite acessar modelos de inteligência artificial em diferentes países e realizar pagamentos por tokens.
Segundo a China Mobile, seus serviços digitais internacionais já atendem mais de 15 mil empresas, com aplicações que incluem operações portuárias no Peru, atividades industriais na Tailândia e sistemas tributários na Austrália.
Exportação de serviços substitui parte do modelo baseado em equipamentos
A transformação não se limita à inteligência artificial. A China também busca ampliar a exportação de serviços associados a tecnologias desenvolvidas no país.
O sistema de navegação por satélite BeiDou apresentou uma plataforma internacional capaz de fornecer continuamente serviços de posicionamento e sincronização de tempo a partir de satélites chineses.
A solução pode ser utilizada dentro dos países clientes e é compatível com os principais sistemas de navegação por satélite existentes no mundo.
A estratégia representa uma mudança em relação ao modelo tradicional de exportação de equipamentos. Em vez de vender apenas dispositivos, empresas chinesas passam a oferecer serviços contínuos associados à tecnologia.
Previsão do tempo e 5G avançam no exterior
Outro exemplo é o MAZU, sistema de alerta meteorológico desenvolvido no âmbito da iniciativa Early Warnings for All, das Nações Unidas. A plataforma combina informações de satélites meteorológicos Fengyun, modelos de previsão numérica e inteligência artificial.
O sistema pode ser disponibilizado pela nuvem ou instalado localmente. Versões adaptadas já estão em funcionamento em sete países, incluindo Paquistão, Sri Lanka e Djibuti, enquanto os serviços em nuvem atendem instituições meteorológicas de mais de 40 países.
A China Unicom também expandiu suas soluções digitais para outros mercados. Entre os projetos estão um sistema de logística automatizada em um parque de comércio eletrônico nos Emirados Árabes Unidos e uma linha de separação de encomendas baseada em 5G na República Tcheca.
A unidade instalada no país europeu consegue processar mais de mil encomendas por hora, com precisão de 99%.
Empresas estrangeiras também ampliam serviços tecnológicos na China
O fluxo de serviços não ocorre apenas da China para outros mercados. Empresas internacionais também estão levando soluções digitais e de inteligência artificial para o mercado chinês.
A Honeywell apresentou na CIFTIS sua plataforma Forge, voltada à aplicação de inteligência artificial em ambientes industriais. O sistema utiliza dados de fábricas, edifícios e centros de dados para oferecer orientações em tempo real relacionadas à manutenção, consumo de energia e operações.
A plataforma atende mais de 25 mil clientes em 288 mil locais no mundo. Em julho, a Honeywell lançou uma versão chinesa hospedada exclusivamente em serviços de nuvem disponíveis na China.
A Schneider Electric também apresentou soluções baseadas em inteligência artificial para distribuição de energia, sistemas críticos e automação industrial. A tecnologia busca identificar possíveis falhas antes que elas ocorram e permitir a adoção de medidas preventivas.
Comércio de serviços supera US$ 1 trilhão por ano
O comércio anual de serviços da China já ultrapassa US$ 1 trilhão. O avanço de tecnologias como inteligência artificial, computação em nuvem, 5G e sistemas de navegação está ampliando o número de serviços que podem ser comercializados internacionalmente.
A transformação também modifica a relação entre produtos e serviços. Equipamentos passam a ser acompanhados por plataformas digitais, processamento de dados, manutenção preditiva, inteligência artificial e serviços contínuos.
Para pesquisadores chineses especializados em comércio internacional de serviços, essa mudança pode levar o país de uma posição de grande participante do comércio mundial de serviços para uma atuação cada vez mais concentrada em serviços de maior valor agregado e conteúdo tecnológico.



