Faltou lugar no teatro do Sesc Maringá na noite desta quarta-feira, 12 agosto. Tamanha a mobilização de leitores e leitoras, às centenas, para ver e ouvir a fala da escritora Aline Bei no bate-papo “Aos que existem sozinhos”, sob mediação da psicóloga Julia Romano e apresentação de Beatriz Eugênia (do Sesc).
O evento é parte da programação da 45ª Semana Literária Sesc & Feira do Livro, que tem como tema central “Tudo cabe na palavra”. É o maior evento simultâneo de literatura do país, com atividades em 27 cidades do Estado.
Autora da “trilogia involuntária”, porque não foi pensada dessa maneira, Bei começou dizendo que em seu primeiro livro, “O peso do pássaro morto” (2017), a primeira solidão que se impôs na escrita foi a ausência do nome da protagonista. “Eu escrevo de maneira bastante espontânea, intuitiva e sou uma pesquisadora profunda da linguagem. Mas ao mesmo tempo, sinto que é importante deixar com que o texto me conduza para o que ele deseja se tornar. Conforme vou escrevendo, vou me iniciando no livro. Ele mesmo me ensina a escrever”, completando que “O peso do pássaro morto” ensinou a esperar pelo nome das personagens.
Por exemplo, na obra “Uma delicada coleção de ausências” (2025) os quatro nomes das mulheres apareceram. Mas no “…pássaro…”, o que ocorreu, conforme Bei, foi a ausência de nomes. Assim, o fato da personagem principal não ser chamada pelo nome, dilatou sua solidão tão profundamente porque estava realmente sozinha, considera a escritora.
De maneira calma e ponderada, a escritora foi ao longo da noite desfiando seu processo ficcional, refletindo sobre personagens, temas e formato da narrativa em seu conjunto literário. Sempre a partir das perguntas de Romano e da plateia. “Tanto a leitura quanto a escrita se dão na reescrita e releitura, no gesto repetitivo e contínuo”, afirmou a convidada.
Aliás, a escrita para ela é um caminho espiralar, pois essa experiência não se torna melhor ou pior com o passar do tempo, apenas se escreve diferente, porque cada livro é de um jeito. E o espaço é essencial para seu texto. “Para mim, a página é linguagem, porque ela é uma grande nostalgia da cena. Eu tenho uma nostalgia imensa do teatro. Eu escrevo a partir dessa grande falta”. Nunca é demais observar que a escritora tem formação também nas artes cênicas. “O modo como a minha palavra se move, se rompe, se posiciona, avança, recua… isso é pura coreografia, performance, cena. É cênico. Muito mais até do que escrita literária”, explicando que é fruto da saudade, do desejo de continuar nesse espaço impossível. Assim, à medida que percebeu isso, sua escrita passou a se tornar o que ela é.
Com o passar do tempo, a frase passou a crescer de dentro para fora, observa Bei. “Ela começou a exigir de mim outras respirações. Outros modos de quebrar, que são mais sutis. Isso está posto em ‘Uma delicada coleção de ausências’, que é o meu primeiro livro em que o narrador está em 3ª pessoa”, explicando que esse ponto de vista de observação permite uma camada de consciência que antes não havia em sua obra, porque nos livros anteriores é uma personagem narrando a partir de sua própria perspectiva. Segundo a autora, um narrador em 1ª pessoa nunca é confiável, porque ele está machucado, ferido, por ele mesmo, em seu campo de visão estrito.

Nomes
Nesse encontro, Bei citou poetas importantes na literatura brasileira, como Adélia Prado, Carlos Drummond de Andrade, Manoel de Barros, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto.
Especialmente Marcelino Freire, classificado pela convidada da noite como um grande escritor contemporâneo. Além de criador de eventos como a Balada Literária e de suas oficinas de escrita. Inclusive, em uma dessas oficinas Bei encontrou a coragem para publicar, incentivada por Freire.
Clubes de leitura
A convidada da Semana Literária Sesc também citou a importância de ter hoje seu público-leitor e os clubes de leitura, em especial o Leia Mulheres, que revolucionou o meio. Mas também o Bons Casmurros de Maringá, que a trouxe pela primeira vez à Cidade Canção para falar sobre “O peso do pássaro morto”, anos atrás.

Novo livro
A autora disse que trabalhará no quarto livro, que ainda não tem título. Será uma obra que se separa da trilogia anterior, mas que também conjuga os elementos presentes nos três. “Eu sou uma escritora cíclica. Meus temas todos estão postos. Essa é a minha matéria como escritora. Está no ‘Pássaro’, está no ‘Pequena’, está no ‘Delicada’, está no quarto livro”.
Bei afirmou que encerrou a trilogia porque esta tem a ver com sua “infância” enquanto técnica como escritora. Agora, ela está entrando na “adolescência” de sua produção. “Nesse livro que se inicia agora, aprendi muito com os três que escrevi. Ele está se alimentando de tudo o que aprendi, de tudo o que eu não consegui, de tudo o que desejo, ele vai continuar caminhando”, explicando que será sempre essa escritora que se apresentou ao público, mas com mudanças sutis dadas sem ruptura total.

Carreira
Aline Bei é escritora, graduada em Letras pela PUC-SP e em Artes Cênicas pelo Célia Helena, com pós-graduação em Escritas Performáticas pela PUC-Rio.
Conhecida por sua prosa intimista, poética e experimental que foca em dores e afetos femininos, ela se destaca no cenário literário atual como um grande fenômeno de público e crítica.
Lançou os livros “O peso do pássaro morto” (2017), que venceu o Prêmio São Paulo de Literatura e o Prêmio Toca; o romance “Pequena coreografia do adeus” (2021), que foi finalista do Prêmio Jabuti; e “Uma delicada coleção de ausências” (2025), focado em relações familiares entre mulheres de gerações diferentes.










