Uma estrada tomada pela neblina, um corpo que surge no caminho e um homem confrontado por lembranças que já não podem permanecer encobertas. Esse é o ponto de partida de “Neblina”, monólogo criado e protagonizado pelo ator Guilherme Veneral, que estreia no dia 11 de setembro, no Teatro Barracão Paulo Mantovani, em Maringá.
Com seis apresentações gratuitas previstas ao longo do mês, o espetáculo reúne memórias pessoais do artista e relatos compartilhados por pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ para construir uma narrativa sobre identidade, preconceito, ansiedade, pertencimento e autonomia. O projeto foi contemplado no Edital de Fomento Aniceto Matti, da política de incentivo à cultura de Maringá.
Codirigida por Mariela Lamberti e Victor Lovato, a montagem parte da linguagem da autoficção para colocar em cena experiências que transitam entre lembrança, invenção e memória coletiva. No dia de seu aniversário, o personagem tem seu percurso interrompido quando encontra um corpo no meio da estrada, durante uma intensa neblina. A partir desse acontecimento, episódios, sentimentos e vozes começam a emergir, compondo uma espécie de cartografia íntima permeada por traumas, descobertas, violências e processos de reconhecimento.
A imagem da neblina funciona também como estrutura para uma dramaturgia interessada nos estados de incerteza e alerta provocados pela opressão. Para Veneral, a criação nasceu de uma tentativa de compreender de que maneira o preconceito pode interferir na autonomia dos sujeitos e na própria percepção de si.
“Por muitos anos eu sofri com a dificuldade de me identificar no mundo. Houve todo um processo para entender meus próprios sentimentos e não deixar que eles fossem definidos pelo pensamento das pessoas que viviam ao meu redor”, afirma o ator e dramaturgo.
A experiência individual, no entanto, não é apresentada como um relato isolado. O texto incorpora histórias que chegaram até Veneral e sentimentos reconhecidos a partir da convivência com outras pessoas LGBTQIAPN+. Essa combinação entre vivências próprias e emprestadas determinou a escolha pela autoficção e pela construção de uma dramaturgia em que os limites entre biografia, memória e invenção permanecem deliberadamente móveis. “Somos atravessados pelo nosso entorno. Uma convivência afetuosa gera indivíduos afetuosos, da mesma forma que uma pessoa é transformada se vive em ambientes de privação e falta de autonomia”, observa Veneral.
A encenação procura materializar também o funcionamento de uma mente em permanente atividade: pensamentos que se sobrepõem, lembranças que irrompem, associações e estados emocionais que coexistem. Desta forma, a montagem não se detém apenas nas consequências da violência e do preconceito, mas se desloca progressivamente em direção ao reconhecimento de si.
“Neblina é uma metáfora cênica sobre um estado de alerta e um espetáculo que debate os malefícios de renunciar a si próprio, ao mesmo tempo em que abre espaço para mostrar o que acontece quando aceitamos quem somos”, explica o artista.
Para Veneral, o próprio teatro ocupa um lugar decisivo nesse percurso. “O teatro foi o lugar onde eu pude me encontrar e saber que, em cena, é possível dar luz para todo sofrimento, assim como é possível celebrar, dia após dia, quem eu sou hoje e sempre fui”.

Oficina de autoficção antecede temporada
Antes da estreia de “Neblina”, o projeto oferece, de forma gratuita, no dia 27 de agosto, das 19h às 22h, a Oficina de Autoficção, conduzida por Mariela Lamberti, no Centro de Ação Cultural Márcia Costa (CAC). A atividade integra as ações de contrapartida do projeto e propõe uma aproximação prática com a linguagem que está na origem da dramaturgia do espetáculo.
Psicóloga, escritora e artista da cena, Mariela desenvolve pesquisa sobre narrativas e autobiografias. É doutora pelo Instituto de Artes da Unesp, mestre pela USP e graduada em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Sua trajetória articula teatro, escrita e clínica, com interesse especial pelas relações entre memória, narrativa e cena.
Durante a oficina, os participantes serão convidados a investigar possibilidades da escrita autobiográfica dentro do processo criativo. Fotografias, músicas, cartas e outros dispositivos servirão como pontos de partida para exercícios que aproximam experiência vivida e invenção, explorando justamente a região de fronteira que caracteriza a autoficção.
Além da oficina, o projeto realiza um ensaio aberto no dia 31 de agosto, às 19h, no Teatro Barracão, também como ação de contrapartida. A temporada oficial terá apresentações nos dias 11, 12, 13, 18, 19 e 20 de setembro, sempre às 20h. A sessão do dia 18 de setembro integra as contrapartidas previstas pelo projeto.
Serviço
OFICINA DE AUTOFICÇÃO COM MARIELA LAMBERTI
Data: 27 de agosto de 2026
Horário: das 19h às 22h
Local: CAC — Centro de Ação Cultural Márcia Costa, Maringá (PR)
Atividade de contrapartida do projeto
Inscrições: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLScleMxcrxieq9qt2f1DDUC36xS9zzLg8qnsuMV9X7aeV96O2Q/viewform
ENSAIO ABERTO NEBLINA
Data: 31 de agosto de 2026
Horário: 19h
Local: Teatro Barracão, Maringá (PR)
Atividade de contrapartida do projeto
TEMPORADA NEBLINA
11 de setembro — 20h
12 de setembro — 20h
13 de setembro — 20h
18 de setembro — 20h (sessão de contrapartida)
19 de setembro — 20h
20 de setembro — 20h
Local: Teatro Barracão Praça Professora Nadir Cancian, sem número, na Zona 7, em Maringá – PR Maringá (PR)
FICHA TÉCNICA
Codireção: Mariela Lamberti e Victor Lovato
Coordenação de produção e produção executiva: Barbara Bittencourt
Texto e atuação: Guilherme Veneral
Direção musical: Nicholas Emmanuel
Trilha sonora: Nicholas Emmanuel, Chá di Lirian e Mateus Rossato
Sonoplastia: Nicholas Emmanuel
Iluminação: Victor Lovato
Figurino: Jo Serbai
Acessibilidade: Forféu — Renan Parma e Pedro Siena
Fotos e vídeos: Erick Costa Domingos
Comunicação: Madá Criativa
Designer e identidade visual: Naju Campos
Projeto contemplado no Edital de Fomento Aniceto Matti nº 051/2025, da política de incentivo à Cultura de Maringá.
Com assessoria








