Uma tragédia marcou a semana passada: uma jovem médica foi morta a facadas dentro do apartamento em que morava, em um condomínio do padrão elevado, em bairro nobre de Maringá. O suspeito fugiu, deixando o imóvel trancado e um bebê de oito meses chorando ao lado do corpo da mãe. O suspeito era o marido da mulher e pai do bebê.
“Esse é o desfecho de um roteiro que começou muito antes e que só chegou a esse ponto porque as pessoas subestimaram a violência doméstica”. Quem fala não é nenhum psicólogo ou qualquer outro profissional que estuda o comportamento humano, mas uma mulher que se baseia na sua experiência que ganha a cada dia por seu trabalho na Patrulha Maria da Penha da Polícia Militar, pelo trabalho que desenvolve junto a mulheres que sofrem com a violência doméstica, mas acima de tudo por ela própria ter sido vítima de violência doméstica por anos.
Com a palavra, Danny Arouca, sargento do 4º. Batalhão da Polícia Militar, que atua na Patrulha Maria da Penha, especialista em Segurança da Mulher, palestrante, instrutora de Defesa Pessoal, campeã brasileira de JiuJitsu e dona de três títulos mundiais na categoria feminino máster.
“O feminicídio está aumentando no Brasil, no Paraná, mas ele é o desfecho de algo que vem ocorrendo há mais tempo, talvez por anos. A violência doméstica acontece a todo momento e acontece tanto nas casas dos bairros pobres quanto nas áreas nobres, atinge a diarista, mas também a profissional liberal e as empresárias”.
Segundo a policial, estudos mostram que uma em cada quatro mulheres ou meninas é vítima de violência doméstica, “mas o número é muito maior, porque entram para as estatísticas somente os casos que são denunciados às autoridades e sabemos que a maioria dos atos violentos não chega ao conhecimento das autoridades”.
Danny Arouca se tornou uma referência na luta contra a violência doméstica porque seu trabalho vai além do da policial. Ela faz palestras em empresas, igrejas, escolas e faz das redes sociais aliadas para que sua mensagem chegue a mais pessoas e em qualquer lugar do País e do Mundo.
Todos são responsáveis
Quando diz que “roteiro começou muito antes”, a policial militar Daniela Alzira da Silva Arouca Bonan quer dizer que os casos de violência contra a mulher na casa podem estar ocorrendo há muito mais tempo do que se imagina e às vezes são de conhecimento de outros familiares e de vizinhos. Mas, nem a vítima, nem os familiares e nem os vizinhos levam ao conhecimento das autoridades. Arrasada psicologicamente, a vítima nem sempre tem forças para denunciar, familiares, amigos e vizinhos às vezes pecam por omissão.

“Com a normalização da situação, o agressor sente-se à vontade para escalar, a violência aumenta e pode terminar em morte”.
Segundo Danny, todos são responsáveis e devem denunciar a violência em qualquer grau. “A violência não é somente física, há muitas formas de fazer uma mulher ou uma menina sofrer e nenhuma delas pode ser normalizada ou subestimada”.
Vítimas dão atenção a quem vive o mesmo problema
Como ninguém, a patrulheira Danny Arouca sabe que a vítima fica muito constrangida quando tem que admitir que vive uma situação de violência doméstica. “Mas, ela se abre quando sente que está diante de uma igual, de alguém capaz e entender o problema por também ser vítima de violência”.
Ela está falando de si mesma. Ninguém imagina que uma policial jovem e campeã de artes marciais possa ser vítima de violência doméstica. “Mas, eu fui. Sofri violência por anos e, como as demais mulheres, também procurava esconder das pessoas. Sofria sozinha”.
Ela diz que a situação mudou quando encontrou e aceitou Cristo como caminho de sua nova etapa, quando admitiu que a violência doméstica havia se tornado um problema em sua vida e que ela tinha que enfrentá-lo, bem como quando começou a treinar artes marciais e ganhou foco, objetivo e capacidade. Com esses ingredientes, ela fortaleceu a autoestima e ganhou confiança para mudar de vida e se livrar do agressor.
Hoje, ao atender uma vítima, a policial da Patrulha Maria da Penha sente que falar de sua experiência ajuda a outra a se abrir e revelar o que realmente acontece e aceita ajuda para se livrar da situação. “A mulher pode não se abrir diante da delegada, do médico, da juíza, mas fala a outra mulher que viveu o mesmo problema”, diz a sargento Arouca. Em suas palestras, depois que abre o coração e fala de sua experiência, outras mulheres a procuram para revelar o que estão passando, gente que ninguém imaginaria que possa estar sofrendo violência doméstica.
Prevenção precisa ganhar espaço
Maringá registrou 6.132 casos de violência contra mulheres em 2025, segundo dados do Boletim de Ocorrência Unificado (BOU) utilizados no Plano Municipal de Políticas Públicas para Mulheres 2026-2029. São quase 17 ocorrências por dia, mas segundo o Fórum Maringaense de Mulheres (FMM), os números podem ser muitas vezes maiores do que os oficiais, já que a grande maioria dos casos não chega às autoridades.
A presidente em exercício do Fórum, professora Tania Tait, aponta o avanço dos casos de violência, dos feminicídios e o surgimento de novas formas de agressão, como a violência digital, como desafios para as políticas públicas. Segundo ela, mulheres negras e em situação de vulnerabilidade social estão entre os grupos mais afetados.
Além do atendimento às vítimas, a avaliação das entidades é de que a prevenção precisa ganhar espaço. Entre as propostas está a ampliação de ações educativas nas escolas e a criação de uma política permanente de prevenção à violência e ao feminicídio.

A rede de atendimento de Maringá reúne serviços como o Centro de Referência e Atendimento à Mulher (Cram), o Núcleo de Maria da Penha da UEM (Numape/UEM) e a Comissão de Violência de Gênero da OAB (Cevige).
O Cram oferece acolhimento, orientação e encaminhamento jurídico, além de acompanhamento psicológico e social às mulheres vítimas de violência.
O Cram de Maringá recebe o nome “Soldado Daniela Carolina Marinelo”, em referência à policial militar vítima de feminicídio em 2023. Ela foi morta com um tiro na cabeça desferido pelo marido depois de um longo período de uma relação abusiva, que muitas pessoas viam, mas ela própria escondia.
Um feminicídio por hora
O Brasil registrou 848 casos de feminicídio nos primeiros sete meses de 2026, apontam dados do Sinesp divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. Isto significa 121 casos por mês, quatro por dia, um a cada 6 horas.
O Paraná registrou 55 casos de feminicídio no primeiro semestre de 2026, o que representa um aumento de 17% em relação aos 47 casos contabilizados no mesmo período de 2025, conforme dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
O Paraná aparece em uma posição crítica no cenário nacional, ocupando o terceiro lugar entre os Estados com o maior número de mortes motivadas por questões de gênero.
Canais de Ajuda e Denúncia
- Ligue 180:
Central de Atendimento à Mulher, para denúncias e orientações - Ligue 190:
Polícia Militar do Paraná, para situações de emergência e risco iminente - Ligue 181
Denúncia anônima (Disque Denúncia) - Defensoria Pública do Paraná
- Boletim de Ocorrência Online
A Polícia Civil do Paraná permite o registro de casos de violência doméstica, no entanto, para solicitar medidas protetivas de urgência, é necessário comparecer a uma delegacia
- Delegacias da Mulher
- Atendimento especializado
para registro de boletim de ocorrência e proteção.
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