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Cidade para vender ou para viver?

Por Redação O Maringá
16 de junho de 2026
Cidade para vender ou para viver? Professor Ricardo Dias Silva, arquiteto e urbanista

Professor Ricardo Dias defende que os projetos devem ser voltados à melhoria da qualidade de vida da população Foto: Arquivo

RICARDO DIAS SILVA
professor, arquiteto e urbanista

 

Uma cidade que consta nos rankings como uma das melhores do país para se viver deveria ser modelo para as demais ou espectadora do jeito alheio de fazer? A pergunta não é retórica: busca entender o que é uma cidade boa para se viver e o que compõe esses rankings, tão utilizados como material de propaganda por administradores públicos e empreendedores imobiliários. O que é bom é o que vende ou o que nos proporciona qualidade de vida? Daí deriva outro questionamento: o que é qualidade de vida? Começo pelo fim.

Qualidade de vida é um conceito abstrato, pois o que é prioridade para alguns pode não ser para outros. Para os medidores institucionais, qualidade de vida — aqui interpretada como qualidade de vida urbana — é identificada pelo acesso das pessoas a serviços essenciais: água tratada, esgotamento sanitário, energia, educação, saúde e segurança. É aquilo que estabelece a Constituição, embora alguns outros direitos, que também estão ali, fiquem colocados à sombra, como o acesso à habitação digna. Esses são aspectos que estabelecem o mínimo para uma pessoa viver com dignidade, mas, particularmente para mim, não expressam qualidade nem proporcionam felicidade, que, no fundo, é o que todos buscam: viver feliz. Para tanto, outros aspectos deveriam ser observados, como o direito de escolha, o respeito às individualidades, a integração com o meio ambiente, o acesso à cultura e à beleza. Sim, a beleza é essencial, parte indispensável da experiência humana, como sugeria Oscar Niemeyer.

Mas, para alcançar essas outras métricas, é preciso ouvir o outro, construir consensos, planejar e, uma vez tomadas as decisões, monitorá-las. Alguns chamam esse método de planejamento participativo. O problema é que esse instrumento, muitas vezes, tem sido usado de forma distorcida para legitimar interesses particulares. Sem informação, capacitação para a tomada de decisão e representatividade popular, o que sobra é encenação.

Entendo que uma cidade boa para viver, além de prover o básico, é aquela que respeita sua história, a natureza, a diversidade e a liberdade. Uma cidade que não imponha a vontade de seu gestor, mas permita que cada pessoa viva de acordo com suas escolhas, respeitando o pacto constituído e a liberdade do outro. Esse é o alicerce de um bom plano.

A partir dele, poderíamos identificar expressões locais e potencializá-las. Afinal, encontramos alento nas nossas raízes e felicidade em boas memórias: o aroma do café, a floração do ipê-roxo, a sombra da sibipiruna, o ranger das tábuas, o futebol na Vila Operária, as festas juninas, a Folia de Reis, o pastel fresquinho, o bon odori, os quintais e a cadeira na calçada, ainda insistentes em alguns bairros. Poder andar a pé, livremente e sem riscos; perder-se pelos cafés, bares e feiras livres; sentar à sombra para ouvir um chorinho em frente ao parque.

Cidades feitas para que as pessoas vivam encasteladas em torres cada vez mais altas, presas atrás do vidro elétrico em congestionamentos, submetidas a rotinas cada vez mais vigiadas e padronizadas, entretidas em shoppings e sonhando viver em Dubai não me parecem as melhores para se viver. Não servem de modelo. Ainda dá tempo de construir um projeto melhor: menos mercadológico e mais humano, menos segregador e mais inclusivo, menos triste e mais feliz.

 

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Tags: Cidade para vendercidade para viverDestaqueRicardo Dias Silva

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