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O Dia em que Aprendi a Aprender

Por André Drago
8 de maio de 2026
O flautista de Hamelin - Ilustração de Kate Greenaway - Crianças seguem a música, encantadas.

O flautista de Hamelin - Ilustração de Kate Greenaway - Crianças seguem a música, encantadas.

Quando eu tinha 8 anos, estava andando com a minha mãe por um enorme supermercado em Curitiba quando vi, na prateleira, um pequeno teclado de brinquedo. Naquela época, as condições financeiras em casa não eram muito boas, e minha mãe não costumava comprar as coisas que eu pedia na rua, mas, naquele dia, eu tive muita sorte. Eu ganhei o tecladinho, um simples brinquedo musical que iria mudar, e muito, a minha vida.

Depois vim a perceber que sempre existiu uma tendência musical em casa. Apesar de eu não ter nenhum familiar que tenha se dedicado ao estudo e à prática da música, tive muito incentivo para escutar música. Minha casa era repleta de CDs e fitas K7, mesmo antes que possuíssemos um sistema de som, que, na época, chamávamos de microsystem — um aparelho que sintonizava rádio e reproduzia CDs e fitas — e que só fui ter à minha disposição quando tinha essa mesma idade.

Música, para mim, sempre foi um mistério. Eu me perguntava o que estava dentro daquelas capas de plástico, daqueles encartes que chamavam a atenção. E foi nessa época de curiosidade e com muito tempo livre — pois não possuía nada além do teclado e do rádio em casa — que eles se tornaram minhas companhias constantes.

Voltando ao assunto do meu primeiro instrumento, eu cheguei em casa naquele dia e me coloquei a explorar todas as características daquele brinquedo, que já se mostrava, na realidade, sem que eu soubesse, um instrumento musical completo. Eu tenho este objeto até hoje e o guardo com muito carinho, como talismã da minha percepção musical.

Entre notas de suas não mais de quatro oitavas, eu aprendi a primeira melodia que toquei: a música Let It Be, dos The Beatles. Esta música vinha salva na memória, com um arranjo completo criado especialmente para aquele tipo de brinquedo, com a melodia saltando em som de piano elétrico e acompanhamentos como o timbre de um baixo, mais teclados e percussões — todos os timbres disponíveis para que eu improvisasse no instrumento.

Logo reconheci quais notas estavam sendo tocadas na melodia e passei algum tempo aprendendo pela escuta e tentando reproduzi-las. Assim, em alguns minutos, em um dia comum, eu aprendi a aprender uma música sozinho — “tirar” uma música, como se diz. Nunca um brinquedo fez tanta diferença no meu aprendizado cognitivo.

Neste instrumento, eu compus minha primeira melodia, usando a escala pentatônica disponível quando se pressionam apenas as teclas pretas. Aquilo foi uma descoberta. De repente, sozinho, eu já havia tirado um som dos Beatles e aprendido a improvisar na pentatônica, além de cristalizar uma interpretação que já possuía a consciência de uma composição musical, a qual eu me lembro e toco até hoje ao piano — agora com acompanhamento harmônico.

Uma das músicas que eu tenho guardadas na gaveta e que, sabe Deus, quando vão a público. Com mais esforço do que sorte, um dia veremos isso, quem sabe.

Outro aspecto interessante é que eu podia gravar minhas performances e escutar repetidamente, o que foi também o início do meu hábito de praticar a perfectibilidade da performance musical. Parece inocente, mas tocar uma melodia repetidas vezes, escutando como eu tocava um pouco melhor a cada vez, me fez desenvolver a percepção da própria beleza em música.

E assim, do nada, eu estava transmitindo a mim mesmo, através daquele pequeno brinquedo, meu fascínio por aquilo que eu ouvia por aí — solto no ar, na abertura de um desenho ou em uma festa de família, talvez transitando pela cidade ou dentro de um carro. Aquela coisa — a música — agora estava em mim também. Saía de mim da mesma maneira que entrava: com curiosidade e prazer.

Hoje vejo que, já de pequeno, minha fixação contínua é esta arte, que é ciência, que é brinquedo, fuga e encontro, ponto de partida e de retorno. Ah, música! Há música!

Sinto que a ausência de um parâmetro de comparação, como alguém que já tocasse ou um professor, me deu a rica oportunidade de descobrir os sentimentos e sensações daqueles momentos por conta própria. Hoje, após me tornar um profissional, este é um local mental que eu sei que custa muita maturidade para acessar.

Quem diria: maturidade profissional para alcançar o estado de êxtase de uma criança com seu brinquedo, pois o mundo é severo com a sensibilidade de uma criança.

Contudo, o mais interessante é que, se fosse hoje e eu nunca tivesse tocado uma nota sequer na vida, eu tenho certeza de que sentiria o mesmo fascínio em segurar um instrumento na mão pela primeira vez e produzir os primeiros sons. Vale a pena tentar. Esta é uma sensação que só quem quer pode experimentar.

Você já ouviu uma música e ficou com vontade de aprendê-la? Mesmo que você se satisfaça apenas em tocar um fragmento do “toquinho” — como chamamos carinhosamente o fenômeno conhecido como tema musical —, vá e ensine-se, aprenda, divirta-se, imerja-se, surpreenda seu cérebro, saia da rotina.

E o mais importante: instrumentos musicais sempre devem estar à disposição das crianças. Meu sonho é um mundo com menos arminhas, menos carrinhos e mais tecladinhos.

Tags: André Dragoaprendizadocriança e músicalet it bepedagogia musical

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