Como compor uma música?
Pare de fugir de si
Se eu precisasse me ensinar do zero o que diria para mim mesmo a respeito dessa pergunta?
Primeiro de tudo, pare de rolar o feed. Você não vai compor absolutamente nada enquanto seu cérebro estiver em processo de decomposição.
Segundo: levante e mexa um pouco o corpo. Existe um mundo que acontece do pescoço pra cima e outro mundo do pescoço pra baixo. Se você passa tempo somente na sua cabeça, você não sai do lugar, literalmente.
Saia do lugar. Ande por aí, ligue para alguém e converse caminhando pela rua ou simplesmente saia sem levar carteira ou celular. Tá bom, você tem medinho: leve um papel com um número de emergência e seu nome escrito. Mas não vá comprar nada, não vá tirar foto de nada, porque não serão somente fotos — você corre o risco de se distrair do seu objetivo.
Esse objetivo não é compor, é viver. Compor a vida que vai ser sua obra, que fica quando você entra em um caixão.
Mas, se seu único objetivo é estar em outra caixa — a de som — pare por aqui. Não precisa compor nada. Você já está estragado. Vendido pro Spotify e pro YouTube.
Obra não é o fim
Se o que você quer é se escutar, ouvir você mesmo, suas próprias canções, e avaliar seu “progresso” (termo problemático aqui), então, gravar acontecerá naturalmente.
Contudo, a gravação em si — o resultado objetivado pelas extensas horas de trabalho, é um mero checkpoint, um registro da sua personalidade naquele período em que criou.
A obra é um objeto em si da arte, mas, primeiro: ela não precisa estar cristalizada em uma gravação. Ela acontece sempre que você mesmo a manifesta.
Segundo: o processo inteiro de criação de uma obra artística, principalmente da música, é muito maior, mais intenso e cheio de ensinamentos do que a própria obra. Este é o real objetivo de compor: passar pela transformação que o estudo de si, do mundo e de si no mundo traz.
O jogo do mercado
Mais de 120.000 músicas são lançadas por dia. Uma minúscula parcela vai se tornar conhecida e atender às expectativas dos criadores.
Tá, mas que expectativas são essas? Dinheiro.
Então, se esse for seu jogo, cai fora também. Quando o dinheiro vira o único critério, a música tende a perder densidade
Uma coisa é compor pra sobreviver — aí teu instinto maluco pode fazer milagres, haja vista Mozart. Contudo, foi enterrado em uma vala comum como indigente. E morreu de burnout (me permita o anacronismo) lá pelos 35.
Por outro lado, alguém que, por já ter a vida um pouco mais confortável, por exemplo, Beethoven, pôde escolher mais o que compor. Teve mais espaço para autonomia, embora também tenha vivido crises profundas. Mozart nesse caso representa o artista pressionado pela sobrevivência. Beethoven, o artista que começa a negociar espaço pra autonomia.
Só que tem um porém: eu não sou nem um nem outro. Não posso me comparar com estes gigantes. Não hoje, não agora e nem aqui. E nem você.
A pergunta que importa
Então, que diabos eu tô falando? Alguém explica.
Eu tô dizendo pra você que, pra compor, você precisa, primeiro de tudo, avaliar suas pretensões. O que torna você tão convicto de que precisa ter obras e músicas atiradas ao mundo, lançadas como se faz com flechas e lanças?
Qual é a sua lança e contra quem está apontada? A quem a sua lança protege? O que você está planejando lançar nessas ideias?
Sobreviveu até aqui? Ótimo, você está admitido.
A disciplina do compositor
O que você precisa saber agora é que você possui uma ciência para se especializar. Você já está apto a compor desde o nível 0, mas o aprendizado é eterno.
Você precisa sempre aprender algo novo sobre teoria musical, instrumentos, poesia, filosofia, antropologia, física e tudo que tenha relação com o ato de compor.
Você também deve definir: o que é compor para você?
É juntar peças de lego que já existem para fazer um castelinho que ainda não foi feito? Talvez, pra você, seja isso — e está tudo bem. Você não está criando, está compondo.
Se pergunte: é possível criar algo? A resposta, pra mim, é clara: sim, é possível.
O ouro
Como faz?
Agora vamos responder à pergunta de um milhão de reais — em barras de ouro que valem mais do que dinheiro. O “ouro” é o que vive dentro de você e de ninguém mais.
Compor é fácil: você pega padrões, repete, cola uma letra em qualquer idioma que você ache que domine e pronto — mais uma das 120.000 músicas diárias está na rede.
Mas, quando você coloca algo seu ali, aí você está criando.
Quando tem aquele sentimento que ninguém entende — nem você mesmo — e você consegue externalizar entre notas, sem vergonha nenhuma de chorar, rir, criticar, gritar ou até mesmo silenciar, tudo isso de uma maneira que transmita o que você, e somente você sente, aí sim você está criando música, e não somente compondo.
E vou te contar um segredo: essa pessoa que está vendo você é você mesmo.
Você é seu proto-ouvinte, a primeira pessoa que reconhece se o que você está dizendo em seu discurso é o que realmente você está sentindo e precisando externalizar.
Você somente está criando música quando está se criando no processo. O resto é treino.







