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Como eu componho uma música?

Por André Drago
8 de maio de 2026
Beethoven, o mestre das variações

Beethoven, o mestre das variações

As tecnologias chegaram arrepiando no sentido de trazer a prática da composição musical para o alcance de pessoas que nunca sonharam em compor uma música. Porque compor uma música pode ser uma tarefa um pouco intrincada, e isso independente da experiência que a pessoa possua na atividade. É muito semelhante à montagem de um quebra-cabeça, você pega primeiro as peças dos cantos. E depois vai se guiando pelas texturas e cores.

Assim como nesse passatempo lendário, a música também tem suas arestas e vértices, também tem cores e texturas. Mas o que seriam esses elementos quando comparados à arte da composição?

Indo pelas beiradas

Se tem uma maneira de tornar mais fácil o desenvolvimento da habilidade de compor é reconhecer o que não queremos em nossa composição. Montar o quadro geral da música pode ficar mais simples se valendo de uma estrutura mais antiga já cristalizada. Por exemplo, posso pensar em compor uma letra a respeito de paciência porque me inspira a música Paciência, do Lenine. Posso usar a estrutura linguística da canção – número de versos, número de frases no refrão ou cadência rítmica da poesia -, utilizando duas ou três das palavras mais significativas ou eficazes – alma, calma, nós, vida. Posso estudar a conexão entre as figurações – “pedir calma”, “pedir alma”, “a vida não para”, “perceber e saber” – elementos que descrevam o sentido do que está sendo comunicado. “Quem vai saber?” ou “Tempo pra perceber” podem inspirar frases como “quem tem tempo vai saber sem perceber”.

Ritmo, andamento, instrumentação, tudo pode servir como moldura da obra a qual você intenciona.

A técnica da variação

Não necessariamente você precisa usar os mesmos jargões, mas saiba que muitas músicas são variações tão econômicas das obras originais que se transformam em versões ou até mesmo plágios. Mas a diferença entre compor uma variação e copiar é que na variação você estuda cada detalhe e indaga o motivo daquela escolha composicional, para então tomar suas decisões seguindo os paradigmas de composição utilizados na obra analisada.

Para compor uma variação é necessário fazer uma exegese – análise completa – de todas as características da composição.

Beethoven uma vez recebeu de Diabelli uma valsa que a ele soava simplória, caricata e irritante. O que ele fez? Destrinchou o tema em 33 variações. Demonstrando a potência, inclusive pedagógica, desta técnica de composição musical.

Formas, cores e texturas

Já temos a moldura (ritmo, tema, instrumentação), e já sabemos qual é a paisagem (escolha do léxico e das figuras de linguagem), podemos pensar em como essas características se conectam. As formas do nosso quebra-cabeça podem ser interpretadas como as escolhas secundárias, as que vão realmente distanciar a nossa composição da nossa inspiração. Você pode variar o andamento, se a música que escolheu de base para estudo é em ritmo binário (para entender, repita a palavra “pirulito” em sequência sem pausa para respirar entre as palavras – eis o ritmo binário), use o ternário (faça a mesma sequência de repetições para a palavra “picolé”) e veja o que acontece. Experimente você agora mesmo cantar “Parabéns pra você” nessas duas assinaturas de tempo distintas, batendo palmas em 2 e depois em 3 tempos, garanto que já dá um trabalhão. Isso pode alterar a “textura” do quadro (nesse contexto, pois em música textura é outra coisa – o conjunto de timbres que, somados, criam uma sonoridade composta). As cores podem ser as repetições, a quantidade de notas por sílaba, ou de sílabas por nota, ou quem sabe você pense em fazer uma versão somente instrumental, ou vocal. Você pode colorir da forma que quiser. No final serão estas as referências para conectar todos os elementos da sua nova música.

Você nunca começa do zero

Para criar uma torta de maçã do zero, primeiro você precisa inventar o universo – Carl Sagan

Se trata disso, confie nos ombros dos gigantes. Acrescente referências ao seu arcabouço musical e cultural. Música é história entre notas, e a história nos mostra exatamente quem copiou e quem inovou.

Montando o quebra-cabeça

Depois de estruturar o ritmo com base nas variações das características escolhidas, estabelecendo a moldura, tal qual os vértices do quadro – assim que se estabelece qual o teor temático, escolhas semânticas tanto “musicais” quanto textuais, a exemplo de arestas que limitam o foco e direcionam a mensagem, musical ou ideológica – no momento em que se definiu quais variações rítmicas melódicas, bem como na harmonia ou textura (agora a musical, instrumental e timbrística) – podemos dizer que estamos próximos ao quadro completo. Agora é pegar uma tarde gostosa, fazer uns quitutes e sucos e aproveitar a diversão. Esse quebra-cabeça também precisa de “cola” pra não desmontar. O que viria a ser esta cola? Duas etapas: primeiro escrever – mesmo que não seja em notação musical comum – tudo que venha à mente enquanto se compõe a variação, e organizar esta anotação cada vez mais até que ela se torne a transcrição da composição em si. Em segundo, é preciso gravar pra ouvir se você não está viajando pouco. Se esse for o caso, viaje mais na batatinha. Se você quer compor, você precisa acostumar-se a ser uma pessoa viajada mesmo.

Tags: André Dragocomposição musicalLudwig Van BeethovenVariação

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