No início da novela, Ulisses Brandão, interpretado pelo ator Alexandre Borges, era, aparentemente, só mais um parasita como os demais membros da mesma família, que viviam de mesadas pagas pelo milionário Arthur Brandão, de Antonio Fagundes. Tipo folgazão, que curtia a vida e a grana ao lado de sua fútil e linda mulher Fábia (Flávia Alessandra), que só pensa em exibir jóias, roupas e um corpo perfeito – e tudo isso ela tem de sobra. De uma hora para outra, o Ulisses só tornou um dos personagens mais importantes e discutidos da novela “Quem Ama Cuida”, de Walcyr Carrasco, que está dando banho de audiência na faixa das 21 horas na Globo.
O Ulisses, que está dando a Alexandre Borges a oportunidade de mostrar todo seu potencial como ator, é um viciado em apostas, drama que atinge boa porcentagem das pessoas e leva às lágrimas e à falência famílias inteiras e que de uma hora para outra passou a atingir mais pessoas devido à facilidade de acesso a jogos por meio do celular.
A proposta de Walcyr Carrasco é mostrar todas as noites, no centro da sala de cada família brasileira, um problema que é verdadeiro, como foi o alcoolismo de Heleninha Rotiman em “Vale Tudo”. O vício em apostas está fora do controle da pessoa que sofre com esse tipo de compulsão. É doença e, como tal, precisa de tratamento eficaz. Pior ainda: é doença incurável, que tanto pode levar à falência, às divídas impagáveis, quanto à morte. O suicídio muitas vezes é tentado por pessoas desesperadas frente a dívidas e à sua incapacidade de parar de jogar.
Mas, o drama de quem sofre com a compulsão por jogos é maior porque é incompreendido pela sociedade. “As pessoas têm dó de quem tem câncer, de quem sofre com uma doença rara, hipertensão arterial. Todo mundo ajuda. Mas, o viciado em jogos é visto como um sem-vergonha, não como um doente”, dizem os especialistas.
“Não adianta só culpar e achar que a pessoa não tem caráter, não tem força de vontade. Você tem que tentar entender qual é o vazio dessa pessoa”, disse o ator Alexandre Borges, que estudou o problema para interpretar seu Ulisses. Pra ele, o jogo mexe com algo emocional e até espiritual: “é um vazio emocional… e isso tudo é uma ilusão.”
Borges ainda lembra que aposta é uma coisa cultural, presente desde a infância, e que a linha entre a “fezinha” de todo mundo e o vício pode ser mais fina do que parece.

O Ulisses Brandão da novela perdeu tudo o que tinha, inclusive vendeu sua parte em uma lucrativa joalheria que herdou do irmão, e torrou na roleta de um cassino tudo o que recebeu. Por conta disso, perdeu o relacionamento com toda a família, inclusive foi expulso de sua luxuosa casa por sua linda e fútil mulher.
Mas, sua situação ainda pode piorar muito por causa do jogo, pois pode tornar-se suspeito de ser o assassino do irmão rico para conseguir herança e assim pagar dívidas de jogos.
Doença que não tem cura, mas tem tratamento
Desde que o celular se tornou um verdadeiro cassino, número de apostadores com comportamento de risco cresce e preocupa especialistas. Perdas financeiras e impactos emocionais afetam famílias e sociedade.
“Eu vendi tudo. Vendi tudo, assim, da noite pro dia, pra poder colocar esse dinheiro, investir na aposta”. Esta é uma frase comum nos depoimentos que se ouve em reuniões de Jogadores Anônimos, onde pessoas se reúnem para falar de seus problemas com apostas. É normal lá ouvir histórias de gente que perdeu tudo, até a família. É normal, também, ouvir depoimentos de quem pensou em suicídio como única forma de se livrar do problema.
Jogadores Anônimos, grupos conhecidos também pelas siglas J.A. ou JA, existe há quase 70 anos e têm sido uma das boas experiências na recuperação de pessoas com compulsão por jogos de todos os tipos, desde o aparentemente inofensivo jogo do bicho, baralho, cassinos ou jogos de celular. Trata-se de locais em que pessoas com problemas semelhantes compartilham suas experiências, forças e esperanças e, dia após dia, conseguem ficar sem jogar.
Mesmo sabendo que essa doença não tem cura, os membros de J.A. conseguem conviver com a doença, assim como os membros de Alcoólicos Anônimos (AA) vivem anos sem beber simplesmente participando de reuniões.

No Brasil, os grupos de JA existem há mais de três décadas e há pessoas que não jogam mais desde que participaram da primeira reunião.
No Paraná existem grupos de JA em Curitiba, Londrina e Maringá e em breve haverá um em Arapongas. Em Maringá as reuniões acontecem sempre às quartas-feiras, às 20 horas, em uma sala cedida na Paróquia do Divino Espírito Santo, na Avenida Pedro Taques. Em Londrina as reuniões acontecem nas terças-feiras, às 19 horas, na Paróquia Sagrados Corações, na Rua Mato Grosso, no Centro da cidade.
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